quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Meu sobrenome é mulher


Inoxidável
Cristiane Sobral

Sou osso duro de roer
Tente morder
Tente quebrar
Sugiro não tentar

Sou osso duro de roer
Sem atalhos
Sem desculpas
Nada de mentiras nem culpa

Tente atacar você vai ver
Meu sobrenome é mulher
Venha quem vier
Sou osso duro de roer

Venço a violência
Fujo da indecência
Odeio hipocrisia café com leite
Sou tudo isso e nunca pro seu deleite

Sou carne de pescoço
Desista você vai perder
Sou osso duro de roer
Fênix fêmea forjada na luta pra sobreviver.



Esculturas em metal por Pierre Matter
O artista utiliza aço inoxidável, bronze, ferro, cobre e latão. Suas esculturas pesam aproximadamente 1,5 tonelada e estão em exposição na França.





quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Amor de mãe

Amor de mãe

Cristiane Sobral

A lindeza da criação dos filhos tem vários capítulos.
Ontem joguei bola com minha filha, ansiosa pelo brincar. Eu, cansada no meu corpo adulto de muitos afazeres não estava tão animada, mas ela inserida na infância, clamava pela fuga da realidade. Por amor, pelos lindos olhinhos da pequena e também pela linguagem, que está aprendendo a manejar muito bem utilizando as sutilezas da nossa língua, eu me fiz inteira e fui. Começamos a jogar bola, veio o pique-pega, eu já quase morta de tanto cansaço em um dia que começou as 5:00 h da manhã. O fato é. Morri na brincadeira, isso, morta mesmo! Nos meus suspiros de abandono da mulher adulta nasci, renasci, a ganhar forças, menina, sorridente, me refazendo. Eu, nova menina guiada pela minha menina, a chefe do passeio, a minha fonte da juventude. Ayana Thainá, mamãe te ama.

Que as mães sejam também mulheres, crianças, cidadãs. Que sejam cuidadas, preservadas e amadas, a salvo de toda a maldade. Mães com filhos protegidos, bem alimentados, na escola, na arte, nos esportes, sonhadores, com futuro.


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Um poema do livro "Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz", de Cristiane Sobral

Petardo

Cristiane Sobral


Escrevi aquela estória escura sim
Soltei meu grito crioulo sem medo
Pra você saber
Faço questão de ser negra nessa cidade descolorida
Doa a quem doer
Faço questão de empinar meu cabelo cheio de poder
Encresparei sempre
Em meio a esta noite embriagada de trejeitos brancos e fúteis

Escrevi aquele conto negro bem sóbria
Pra você perceber de uma vez por todas
Que entre a minha pele e o papel que embrulha os seus cadernos
Não há comparação parda cabível
Há um oceano
O mesmo mar cemitério que abriga os meus antepassados assassinados
Por essa mesma escravidão que ainda nos oprime

Escrevi
Escrevo
Escreverei

Com letras garrafais
Em vermelho vivo
Pra você lembrar
Que jorrou muito sangue.



Imagem do grupo OPNI - Brás - SP.


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Carlos de Assumpção - literatura negra

Queridos leitores sagazes, inteligentes, queridos. Eu sou uma leitora contumaz. Leio e sempre procuro ler mais. Isso fomenta a minha atividade.
Hoje quero falar da gratidão e alegria por ter conhecido a obra de poetas negros como Carlos de Assumpção, honorável, inquietante, desafia o sistema racial brasileiro em suas contradições e afirma os valores da negritude e da resistência negra.
Como escritora, tenho interesse em mergulhar na identidade negra, na temática negra, em conhecê-la cada dia mais, encontrar meu povo, falar sobre ele, entender suas contradições, lutar com ele, e me encontrar no âmago de minha negritude a serviço da humanidade, cada dia mais.

Carlos de Assumpção, nascido em 1927 em Tietê - SP, é referência na literatura negra brasileira. Autor dos livros "Protesto" e "Quilombo", co-autor do cd "Quilombo de Palavras" com Cuti, participou de diversas antologias como "Cadernos Negros" – Quilombhoje- e "Negro Escrito" – Org. Oswaldo de Camargo. Foi frequentador assíduo da Associação Cultural do Negro, no centro de São Paulo nos anos 50, onde se encontrava com ativistas da extinta Frente Negra Brasileira e com escritores e intelectuais de grande importância como Solano Trindade, Aristides Barbosa e Oswaldo. Membro da Academia Francana de Letras, formado em Letras e Direito, escolheu a cidade de Franca/SP para estudar e lecionar. Em 1982 Carlos de Assumpção ficou em 1° lugar no II Concurso de Poesia Falada de Araraquara/ SP com o poema Protesto. Em 1958, por ocasião do 70° aniversário da Abolição, recebeu o título de Personalidade Negra, conferido pela Associação Cultural do Negro, em São Paulo/SP.
Carlos de Assumpção deve ser relembrado sempre pela sua obra gigante, em especial o poema "O Protesto" para muitos o maior e o mais significante poema brasileiro, o Hino Nacional dos negros. “O Protesto” reflete sobre a escravidão em sua dor e as cicatrizes contemporâneas da inconsciência pragmática da alta sociedade permanente perversa.
O mestre Milton Santos dizia os versos do Protesto e o discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington. «I have a Dream» (Eu tenho um sonho) foram os dois maiores clamores pela liberdade, direitos, paz e justiça dos afros americanos.
Vejam imagens de Carlos de Assumpção:









Saiba mais:
http://brasasarau.blogspot.com.br/2009/11/carlos-de-assumpcao-tambores-da-noite.html
http://www.letras.ufmg.br/literafro/data1/autores/39/carlosassumpcaocritica01.pdf

O Protesto

” Irmão sou eu quem grita
Eu tenho fortes razões
Irmão sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar
Mais irmão fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver no porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minh´alma está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Quero a vida que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me calar".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Reflexões pontuais sobre a literatura negra e um poema publicado nos Cadernos Negros 37

Pensando sobre a literatura negra


1. Um bom poema dispara sua flecha certeira, é preciso a desafiar a palidez da paisagem canônica.

2. A poesia é arte, gesto, cura. Nas páginas alvas, grita a nossa ancestralidade, a ousar inserir grafismos da negritude no cenário das letras.

3. A palavra deve desafiar os paradoxos da realidade, instigar os sentidos e mentes adormecidas.

4. Quando escrevo tomo posse de vozes ancestrais. Nossa gente tem memória, deve ter vez e lugar no universo literário.

5. O som das letras deve embalar e estimular as conexões cerebrais e provocar abalos a ponto de invadir o inconsciente. A sonoridade da poesia é porta de transformações e revoluções nas mentes.

6. Escrever é contar de novo, nas letras está um gesto transformador e avassalador a empoderar os sentidos, libertar o inconsciente e mudar o estado das coisas.


Página Preta

Cristiane Sobral


uma página preta
não dá conta da nossa demanda
mas já é um outro negro começo

uma página preta
não é tudo o que queremos
mas já anima o corpo cansado da luta

uma página preta
em tempos de tanta besteira
um ensaio sobre José Carlos Limeira
preta página subvertendo a lógica da procura
salpicando tinta fértil nesse universo de brancura

o mundo em preta cor
uma página preta
invadindo a retina do planeta
mostrando que o preto combina
com tudo.

Cadernos Negros 37. Poemas Afro-Brasileiros. São Paulo. 2014. Antologia. Ed. Quilombhoje.


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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Poemas de Agostinho Neto - fonte de inspiração

AGOSTINHO NETO
(1922-1979)



Antonio Agostinho Neto nasceu em Icola e Bengo, Angola. Estudou medicina em Portugal. Foi um dos dirigentes do movimento de independência de seu país e, triunfante, foi o primeiro presidente da nova república. Sua obra literária é reconhecida internacionalmente.

Compartilho alguns dos poemas desse autor que tanto admiro, pura inspiração na minha criação literária.




Adeus à hora da largada

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.



CRIAR

Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
gargalhadas sobre o escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho-sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos

Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos.
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor

sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas

criar
criar amor com os olhos secos.


ASPIRAÇÃO

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda o meu sonho de batuque em noites de luar

Ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado
Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu Desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.


morro
fatalmente.

Por todo o mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há séculos espero.

Um dia
que não seja angústia
nem morte
nem já esperança.

Dia
dum eu-realidade.




HAVEMOS DE VOLTAR
Agostinho Neto

Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar.

Às nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar.

Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar.

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar.

À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar.

À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar.

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar.

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente.

Agostinho Neto (Angola)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Promoção relâmpago para a aquisição de livros de Cristiane Sobral


Queridas leitoras e leitores, bom dia!

Anunciamos a primeira promoção de livros de 2015 agradecendo pelo êxito e pelo apoio no ano anterior.

Pelo custo de um leve dois. Adquira o livro "Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz, poesia, Ed. Teixeira, 2014 e ganhe o Cadernos Negros 37, Poemas Afro-Brasileiros, Ed. Quilombhoje. 2014. SP.
Cadernos Negros 37, um dos trabalhos que mantém viva a literatura afro-brasileira, é uma antologia com textos de vários autores negros de vários Estados brasileiros. Depois de 36 anos, a antologia está renovada. Este volume 37 traz uma maior quantidade de jovens escritores e escritoras e conta ainda com um expressivo número de mulheres e a força da poesia de escritores e escritoras que publicam há mais tempo.

Leve os dois livros pelo valor de R$ 30,00 mais taxa de correio de 10,00 em média dependendo da cidade.
E quem já tem o "Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz e quer levar o Cadernos Negros 37? Custa 25,00 mais a taxa de correio.

Dados para a transação bancária:

Conta corrente - Banco do Brasil Agência 1606-3 conta 62973-1 titular Jurandir dos Santos Luiz
Mandem o comprovante com o endereço de envio para crisobral2@gmail.com ou facebook Cristiane Sobral.
Estamos à disposição para dúvidas.
Entregamos no DF.
Para a aquisição de grandes quantidades mandem mensagem para consultar preços.




Aproveitem, temos poucos exemplares na promoção.

Um abraço a todos, sucesso, saúde e realizações em todas as áreas.