quarta-feira, 23 de julho de 2014

Caminhos abertos

Escrever é um ato de fé. É preciso enfiar a mão no ofício. Nasce um novo livro. Será que vai ser bom? Será que vai agradar? Consegui enfim exprimir o que queria? São inquietações da criação, depois do tempo de preparação de um novo projeto, da solidão saboreada frente ao computador, das horas de edição do texto, dos meus disparos, certeiros ou imprecisos no teclado vida dos meus neurônios. Não é fácil, não é fácil. O texto precisa e cobra tempo, reflexão, outras leituras. Como escrever sobre a negritude em um país onde os negros ainda estão vivendo o desafio de escrever a própria história? Não consigo me apartar do que sou enquanto escrevo. Não preciso. Escrevo inteira, mulher, negra, em meio às tarefas do cotidiano, a tentar fugir da parafernália televisiva, auditiva e de toda a ordem em nossos tempos. Nesses dias, o tempo apressado e a superficialidade dos encontros poda a experiência, mas eu insisto em tentar tocar vocês, porque tenho tocado meu coração, meu sangue, porque tenho transformado meu mundo desde que decidi fazer isso, então sei que é possível que todos possam mudar o estado das coisas A arte e a literatura estão comigo desde que nasci, no meu DNA que desconheço, na história que decidi escrever a partir do que o tempo imprimiu. Não há nada natural na natureza, somos construção.
Creio no trabalho, no caos, na testosterona, no brilho do amor que renova a existência. Creio no que escrevo. No que ainda vou escrever. Creio nos meus leitores. Mas também posso mudar de rumo a todo instante. Voo com o vento. Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz. Espere o inesperado.




Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz

Só por hoje
Vou deixar o meu cabelo em paz
Durante 24 horas serei capaz
De tirar
Os óculos escuros modelo europeu que eu uso
Enfrentar a claridade
Só por hoje

Só por hoje
Durante 24 horas
Serei capaz
De contemplar o que sou

Só por hoje
Encarar a claridade
Sem as sedutoras lentes
Que nos ensinam
A desejar ser quem não somos

Só por hoje
Desafiar a claridade
Com os escurecimentos necessários
De um olhar “3 D”

Só por hoje
Só por hoje
Vou deixar o meu cabelo em paz.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Cristiane Sobral no Festival Latinidades 2014 -lançamento de seu novo livro

O novo livro será lançado em primeira mão no dia 25/07 - 17h

Venham conhecer o rebento na sexta, 17h aqui na Capital, no Museu da República, no Latinidades Afrolatinas, vários livros serão lançados na ocasião, o meu custa 25,00, levarei outros volumes também. Vamos nessa? Ainda teremos o Encontro de Saraus negros às 21h do mesmo dia, serei a facilitadora desse momento mágico, conduzindo essa rica jangada.
O nome da criança?"Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz". Poesia. Ed. Teixeira. 2014. Brasília.



17h00 \ Museu da República - Lançamentos

Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz/ Cristiane Sobral. Poesia. Ed. Teixeira.

Coletânea Poética, obra coletiva da Ogum’s Toques Negros

InCorPoros – nuances de libido, de Nina Silva e Akins Kintê;

Pretextos de Mulheres Negras, obra coletiva organizada por Elizandra Souza e Carmen Faustino

Revista Afirmativa, um projeto dos Estudantes de Jornalismo da UFRB

Versos de la Diaspora/Verses from the Diaspora, de Tony Polanco-Bethancourt (Panamá/EUA)





21h00 \ Museu da República
Apresentação: Cristiane Sobral (DF)

Sarau Afro Mix / Quilombhoje (SP)

Sarau Apafunk (RJ)

Sarau Bem Black / Blackitude (BA)

terça-feira, 15 de julho de 2014

Poema em espanhol


Queridos leitores, acabo de receber direto do Equador, o meu livro "Não vou mais lavar os pratos", poesia, traduzido para o espanhol.Em breve teremos novidades!
Segue um dos poemas traduzidos por Jennie Carrasco.


Infinitamente provisional

Cristiane Sobral

Voy a partir y salgo medio fragmentada.
Sobreviví a un amor en pedazos.
Con centellas penetrando como púas
El amor es medio lagartija
Así como se va, se recupera
Cobra nueva vida en la distancia. Se renueva.
Voy a partir, no tiene caso la reconciliación
Chao. Adiós. Otros labios llegarán
Nunca iguales a los tuyos
El amor olvida lo antiguo
Cuando se envuelve en nuevos brazos
El amor tiene memoria de la situación
Partiré. Termina nuestro mundo
Comienza un mundo nuevo
Infinitamente provisional
Incontestablemente ilusorio
La próxima vez intentaré
No mirar el mundo a través de los ojos del otro
Chao. Adiós. Otros labios llegarán
Refrán de orgasmos. Estribillo de espasmos
El amor tiene memoria de la situación
La pasión tiene amnesia de la desilusión
El amor es medio así, de los otros
Medio maletas listas, medio “chek-in”
Infinitamente provisional.

Tradução - Jennie Carrasco, Equador.




quarta-feira, 9 de julho de 2014

Um mimo para os leitores

Leitores queridos, bom dia, quero dedicar um mimo, um poema integrante do conjunto de textos do meu novo livro "Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz". O volume será lançado no dia 25 de julho em Brasília - Museu da República, às 19:00h, na programação do Festival da Mulher Afro-latina, Americana e Caribenha. Latinidades 2014 - http://afrolatinas.com.br/

Poesia de Cristiane Sobral


Brisa

É preciso resgatar
Das mulheres a delicadeza
A flor mais preciosa e perfumada
Transformar em suave canto
O grito grudado na garganta
O anseio inesperado
A fúria desmedida
Nas águas repousar o corpo
E entregar os caminhos.


Cristiane Sobral é carioca de Coqueiros, (RJ). Mestranda em Artes. (Universidade de Brasília), Especialista em Docência Superior pela Universidade Gama Filho (2008), Licenciada em Educação Artística pela Universidade Católica de Brasília (2005) e Bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília (1998). Na carreira artística há mais de 20 anos, tem atuado em cinema e teatro, onde já foi dirigida por diretores renomados. É Coordenadora de Modernização na Fundação Cultural Palmares/MinC. Trabalhou durante 12 anos na Embaixada de Angola assessorando e elaborando documentos sobre a experiência negra no Brasil; Também esteve em Angola assessorando o Ministério da Cultura daquele país e formando quadros no campo das artes negras angolanas; atualmente, assessora o Ministério da Cultura participando de comitês governamentais e de Comissões de Avaliação de certames onde atua como parecerista com expertise na cultura negra brasileira.Membro do Sindicato dos Escritores do DF. Escritora imortal na Academia de Letras do Brasil. Tem várias publicações com destaque para Não vou mais lavar os pratos, poesia, Ed. Dulcina. 2ª edição. 2011 e Espelhos, miradouros, dialéticas da percepção, contos. Ed. Dulcina, 2011. 1ª ed.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O último ensaio antes da estreia - conto



LITERAFRO - www.letras.ufmg.br/literafro



Naquele dia, enxergou os seus abismos disfarçados sob as olheiras que deturpavam a visão da mulher bela que aquele rosto refletiu um dia. Estava tão desesperadamente só, que abriu todos os remédios de sua caixa de providências para qualquer mal estar. Para ganhar tempo diante do desejo de morte, resolveu recitar as bulas de remédios em voz alta.
Ali, sentada no vaso sanitário, estava nua, enquanto aguardava os quarenta minutos para o efeito da tintura para cabelos cor vermelho-sangue que comprou na drogaria da sua quadra. Com os pés descalços tentando evitar o chão gelado do banheiro, mas sem tanta flexibilidade para tentar outra posição de pernas, interpretava o texto farmacêutico à moda textocentrista: sem uso de expressões mais consistentes, nem muitos gestos, em tom declamatório.
As indicações foram recitadas como num drama moderno; os efeitos colaterais tiveram certo tom propício à tragédia grega, os nomes dos remédios foram ditos como pura comédia farsesca. Resolveu colocar no rosto uma máscara facial e um creme depilatório para o buço, para lembrar qualquer Colombina da Comédia Dell Arte e flertar com algum elfo ou fada, para ressuscitar os modelos clássicos gregos revisitados por Shakespeare. O chão de pequenas pastilhas quadriculadas estava muito gelado, hostil, escorregadio. Nada convidativo. Tudo cheirava a monólogo, a água sanitária, a divagação cáustica. Nunca havia conseguido esperar os quarenta minutos da tintura. Dessa vez perdeu a noção do tempo. Quando a polícia chegou, sua pele negra estava misturada ao sangue e à tintura de cabelo, enquanto o rosto exibia as manchas provocadas pela queimadura do creme depilatório exposto em suas mucosas por um tempo demasiado longo. Parecia ter mesmo escolhido os moldes da tragédia grega, embora desconhecesse que não era uma personagem em potencial.
Não era nobre, nem heroína, não tivera o seu destino traçado pelos deuses, sua história não tinha traços de hamartia, não cometera nenhum erro trágico. Pelo contrário, era uma mulher comum, vivendo um drama urbano, ignorava que as cenas de terror e violência, nas verdadeiras tragédias, não poderiam jamais ser apresentadas à vista do público. Mas teve o seu fim trágico.
Aquela moça, desconhecida no bairro, ocupou todas as manchetes dos jornais do dia seguinte. Virou notícia. Quem era ela? Por que o suicídio? O seu enterro foi a sua estreia numa existência feita de ensaios e nenhuma cena digna de divulgação.

Sobral, Cristiane. Espelhos, Miradouros, Dialéticas da percepção. Ed. Dulcina. 2011. Brasília. 1ª ed.






terça-feira, 24 de junho de 2014

Cristiane Sobral performando na 35ª Edição da Noite Cultural T-Bone - Com show de Jorge Ben Jor - 26 06 - a partir das 19h - 312 Norte


A 35ª edição do projeto Noite Cultura, promovido pelo Açougue Cultural T-Bone, vai receber um nome de peso da música brasileira: Jorge Ben Jor. Além disso, a cantora Ângela Regina e poetas promoverão a arte e cultura na CLN 312/313. O evento terá início às 19h do dia 26 de junho de 2014 e é gratuito e aberto para toda a comunidade.

Jorge Ben Jor, atração principal do evento, começou sua carreira de sucesso em 1963, com a música “Mas que nada”. A canção atraiu a atenção do público, e Jorge lançou seu primeiro LP, Samba Esquema Novo. Desde então, vários sucessos vêm compondo a trajetória do músico inovador, autor de canções emblemáticas, como “Chove Chuva”, “País Tropical” e “W/Brasil (Chama o Síndico)”.
Jorge, nos 51 anos de sucesso, lançou mais de 20 discos e dividiu o palco com grandes músicos brasileiros, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, por exemplo. Sua fama não se limita ao Brasil: a canção “Mas que nada” foi gravada por artistas internacionais, como Ella Fitzgerald e Julio Iglesias. Além disso, é a única música em português a ficar em primeiro lugar entre as mais tocadas dos Estados Unidos.

Além de música, a Noite Cultural vai contar com a arte de 10 poetas de Brasília. Eles terão a oportunidade de recitar seus trabalhos para o público do evento. Os nomes confirmados são André Giusti, Cristiane Sobral, Diná Brandão, Fabrizio Morello, Jorge Alexandre, Jorge Amancio, Nanda Fer, Nicolas Behr, Noelia Ribeiro e Vicente Sá. Os poetas Jorge Amancio e Vicente Sá são os coordenadores.

O Açougue Cultural busca estar em sintonia com a comunidade que vive próxima à comercial da 312 norte. Por isso, com o objetivo de não lotar os estacionamentos de moradores, incentiva o público a utilizar formas alternativas de transporte (como bicicleta, ônibus, carona ou táxi, por exemplo) para chegar ao evento.

http://www.t-bone.org.br/index.php/t-bone-cultural/noite-cultural/35-noite-cultural-musica-e-poesia-na-rua/
Postado por Marcos Freitas às 13:28
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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Entrevista de Cristiane Sobral a BG Magazine, do Equador

BIOS edición 069 sí sudaca. BG MAGAZINE: www.bgmagazine.com

Nombre: Cristiane Sobral
Nacionalidad: Brasileña
Profesión: Actriz, escritora y profesora
Web/ BLOG: cristianesobral.blogspot.com

PARTE I
1. Cuatro líneas de currículo comentado en donde expliques tus logros profesionales / artísticos más importantes
Cristiane Sobral nació en Río de Janeiro. Especialista en la Enseñanza Superior y Licenciada en Artes Escénicas por UCB (RJ). En UNB (Universidad de Brasília), fue la primera bachiller negra a completar el curso de Interpretación Teatral. Hace doce años, dirige la “Cia de Arte Negra Cabeça Feita” (CIA de Arte Negra Cabeza Hecha), produciendo actuaciones que desafían los estereotipos asociados con las personajes negras. Publica prosa y poesía desde el año 2000 y su producción se puede encontrar en libros, artículos y ensayos en diversas revistas nacionales e internacionales.
2. Cómo tu identidad se refleja en tu discurso artístico o profesional
Mi identidad negra está completamente insertada en mi discurso profesional y artístico, busco dar visibilidad a las personas del pueblo negro, a su historia y a la su ascendencia, y rescatar el protagonismo de la negritud en la construcción de la nación brasileña.
3. Qué elementos específicos tomas de tu cultura
La ascendencia, el modo de vida comunitario, la forma de la crianza de los hijos y la vida familiar, el rescate de términos africanos e indígenas insertados en nuestra lengua portuguesa, la celebración de personajes negros conocidos o desconocidos, que dejaron un legado en este planeta.
4. ¿Cuál es tu lucha como ecuatoriano /sudamericano?
Mi lucha es contra el racismo, el sexismo, por el respeto por las diferencias y para su reconocimiento, por la apertura de oportunidades para las negritude en todas las esferas de la sociedad, teniendo en cuenta que somos el país con la mayor población negro fuera de África; y también para el fortalecimiento de la autoestima de los jóvenes y las jóvenes negras en su búsqueda de referencias para el ejercicio de la ciudadanía.
5. ¿En qué estás trabajando actualmente?
En la difusión de mis libros "Não vou mais lavar os pratos (No voy a lavar los platos)", poemas y "Espelhos, miradouros e dialéticas da percepção - contos (Espejos, lugares de interés y dialéctica de la percepción - cuentos), la enseñanza de teatro, dirigiendo a mi grupo de teatro y la finalización de un nuevo libro de poemas.

II PARTE: DE manera automática (pocas palabras)

Canción sudamericana que te ponga los pelos de punta: Olhos Coloridos (Ojos de color), Sandra de Sá.
Comida típica favorita ¿la sabes hacer? Rabada, No lo se hacer. La de mi madre era mi preferida…Comida carioca de raíz…
Águila y dólar:
Debemos fortalecer la economía, nuestros productos, pensar en la distribución de la riqueza en este planeta para reducir las desigualdades.
Personaje histórico sudamericano:
Carolina María de Jesús, (Sacramento, 14 de marzo de 1914 - Sao Paulo, 13 de febrero de 1977), ex - recogedora de papel, con poca educación, barriobajera, mujer, negra y pobre, hizo de las obras un medio de denuncia socio-política. El libro "Quarto de Despejo (1960)" tuvo una tirada inicial de diez mil ejemplares (que se agotaron en la primera semana), y fue traducido a 13 idiomas. También escribió Casa de Alvenaria - Casa de la Masonería (1961), Pedaços de Fome - Piezas de hambre (1963), Proverbios (1963) y Diario de Bitita (1982, póstumo).
Ídolo sudamericano actual:
Juez Principal Luislinda Valois, bahiana, primera juiz negra, nieta de abuelo esclavo, hija de Santo, y la primera mujer negra a unirse al poder judicial en Brasil.
Objeto sudamericano - tesoro: Una casa grande con un patio para mis hijos
Tradición popular que practicas: samba
Vida familiar: Un bálsamo, un remanso de paz
Problema tu región: la violencia y la falta de acceso a una educación de calidad
Afinidad política: no tengo
Orgullo local: los escritores negros: Conceição Evaristo, Lia Veira , Esmeralda Ribeiro, Cuti, Oliveira Silveira e Solano Trindade (in memorian).
Amor de tu vida: Mis hijos e mi marido